Construção
de uma
máquina de Wimshurst
"Classica"!
(Implementing
a
"classic" Wimshurst machine)
A
vida é interessante. Algumas pessoas deixam de lado sonhos
da
infância , outras simplesmente não conseguem
deixá-los de lado. Desde menino, lendo antigos livros na
biblioteca da escola aonde estudava, sonhava um dia poder construir e
operar uma verdadeira máquina eletrostática.
Fascinou-me
aprender um pouco sobre a estrutura da matéria, o modelo
atômico, o elétron - mas eu precisava "ver ao
vivo" tudo
aquilo que lia. Em especial a máquina de Wimshurst, que
aparecia
em muitas ilustrações, chamava minha
atenção.
Infelismente as dificuldades para a construção de
algo
assim são grandes, especialmente se não se tem
recursos
financeiros e materiais para a sua implementação.
A vida
passou, veio a internet e um dia, procurando
informação
sobre descargas elétricas para um trabalho que devia fazer
para
meu curso de física, encontrei o website do Professor
Antonio Carlos Queiroz
(http://www.coe.ufrj.br/~acmq/wimport.html)
- lembrei
imediatamente deste sonho deixado para trás - e me perguntei
: por que não
resgatá-lo?
Passei
então a estudar e construir diferentes versões da
máquina de Wimshurst. A primeira
máquina foi doada a
uma escola estadual
aqui em Porto Alegre, aonde espero algum dia que um garoto curioso como
fui possa se sentir motivado a estudar física. A segunda máquina
foi
doada ao núcleo de ensino de ciências na faculdade
de
biologia da PUC/RS - NECBIO, para treinar futuros professores a
executar demonstrações de
eletrostática.
Esta página apresenta com detalhes a
implementação
de minha terceira máquina de Wimshurst, numa
versão que a
meu ver está bem próxima daquelas que eu
conhecí
nos livros de física. Se voce quiser poderá
assistir a um
vídeo com esta máquina funcionando, operando com
as
diferentes versões de garrafas de Leyden que testei clicando aqui.
Gostaria de comentar aqui um aspecto interessante desta atividade a que
me dediquei: devido à grande quantidade de
operações necessárias para se obter as
peças para montar estas máquinas, decidi estudar
e
adquirir um pequeno torno chinês, uma furadeira de
bancada
me foi doada por meu amigo e irmão Claus Collats. Aprendi
muito
sobre a confecção de peças com meu
amigo Nestor
Vogel, que também me ajudou em
diversas
operações mais complicadas. Também
pesquisei muito
sobre materiais, inclusive havendo construído um voltimetro
eletrostático para
poder determinar o potencial
desenvolvido por minhas máquinas.
Meu objetivo com este projeto era construir algo bonito e
funcional como esta máquina antiga:
Em
face a todo o conhecimento e experiência que adquiri, quer
através de pesquisa e experimentação,
quer pela
troca de idéias com o professor Antonio Carlos Queiroz e
dado o
caráter multidisciplinar que envolve um projeto deste tipo,
recomendo
fortemente que todos os que por ele se interessam que efetivamente
coloquem-no em prática!
Início do Projeto
Para
o dimensionamento da máquina (tamanho dos discos, estimativa
da
corrente de saída, etc. utilisei o software desenvolvido
pelo
professor Antonio Carlos M. Queiroz, o WMD (clique
aqui para download). Usando
este
software optei pelos
seguintes valores:
Tela
do software WMD
já com os valores preditos para minha máquina
De
acordo ao calculado, minha máquina poderá
produzir
faíscas de mais de 20 cm e uma corrente de pouco mais de 26
microampéres. Claro que isto é
teórico, e
dependerá do material utilizado na sua
implementação e nas
condições ambientais em
que a máquina for utilizada.
Preparação
dos discos
Material
empregado: Discos
de
acrílico 4 mm, cortado nas dimensões adequadas;
fita auto-adesiva de alumínio
Sem
dúvida
esta é uma das tarefas mais
complicadas de se
fazer se não houver o recurso material
necessário. Os
meus discos são de acrílico de 4 mm de
espessura e
diâmetro de 43,5 cm. Foram cortados com uma serra tico-tico
elétrica e então fixados em um eixo preso ao
carro porta
ferramentas em um torno, em cuja placa foi fixada uma ferramenta
constituída de um disco de madeira com uma lixa colada
nele.O
resultado foi bom, obtive dois discos bem iguais e circulares.
Discos de acrílico cortados - técnica para fazer
discos redondos em um torno
O
passo
seguinte foi demarcar o local de colagem dos setores. Construí
então em uma folha de
papelão uma
escala de referência , usando um transferidor, e marquei a
posição dos setores,
Passei então a fabricar os setores. eles são
construídos a partir do corte de uma fita de
alumínio
auto-adesiva (marca Scotch) cortadas usando uma ferramenta especial que
mandei fazer em uma fábrica de artefatos para a
indústria
calçadista. Naturalmente os setores podem ser recortados
à tesoura, mas como eu pretendí construir uma
máquina bem "profissional"...
separados por
ângulos de
20º. (São 18 setores).
Ferramenta de corte mandada construir para a
fabricação dos setores
O setor é
cortado batendo a ferramenta contra uma madeira
(estampagem) usando um martelo
Coloquei o disco
de
acrílico sobre a
escala e iniciei a colagem dos setores , usado como guia o desenho
feito no papelão.
Primeiro setor sendo colado no acrílico. Pode-se ver
o desenho no papelão abaixo dele; disco com todos
os
setores colados.
Discos prontos, como eu queria! Detalhe do rolo de fita adesiva de
alumínio.
Os
Neutralizadores
(Neutralizers
implementation)
Os
neutralizadores foram construídos com barras de
aço
inox retiradas da grelha de um fogão velho, cortada
cuidadosamente com uma serra para metal. No ponto central fiz um furo e
rosca de 4mm e fixei uma esfera para acabamento de um lado e uma porca
para ajuste no outro. O conjunto foi fixado ao eixo da
máquina
aonde foram previamente montados os bosses com rolamento e os discos.
Desta maneira posso girar os neutralizadores e fixar sua
posição apertando a porca interna com uma chave
de boca,
e o conjunto fica bonito. Na extremidade que toca os discos fixei um
tubo de latão torneado e perfurado com parafusos 3mm, nos
quais
coloquei uma malha de latão que retirei de um velho
magnetron de
forno de microondas.


Vista do conjunto
discos/eixo/neutralizadores, pronto para ser colocado no suporte da
máquina.
Garrafas
de Leyden (capacitores)
(Leyden
Jars construction)
Já
comentei que implementar máquinas eletrostáticas
requer
muita paciência e experimentação; nem
sempre as
soluções planejadas funcionam como esperado.
Testei
várias formas de construção para as
garrafas de
Leyden (capacitores de alta tensão) até chegar em
uma que
funcionasse adequadamente.
Primeira tentativa:
Mandei
confeccionar num vidreiro um par de tubos de vidro Pyrex, fechados em
uma extremidade, para a implementação dos
capacitores de
alta tensão de minha máquina. A tampa dos mesmos
foi
torneada em Nylon, e nelas fiz um furo para a passagem de um terminal
cilindrico. Também fiz um pequeno furo na lateral das tampas
e
neles fiz rosca M3, aí coloquei um parafuso para fixar os
eixos
nas tampas. Por dentro e por fora do vidro colei a mesma
fita metálica de alumínio usada na
confecção dos setores, formando as duas placas
dos meus
capacitores. O contato da placa interna dos capacitores com a haste
metálica
que sai pela tampa é feito por uma pequena peça
de
latão dobrado (ver figuras abaixo) que vai presa
à haste
por um parafuso (a haste foi furada no sentido do comprimento e foi
aberta rosca M3 em seu interior para a fixação do
parafuso). Os capacitores desta forma construídos foram
medidos
usando minha ponte RLC e apresentam capacitância de
aproximadamente 120 pF (118pF e 121pF). Não posso precisar
sua
tensão de ruptura, (pois não pretendo
alcança-la!)
mas testei os mesmos com minha fonte de alta tensão e os
mesmos
funcionaram sem problemas até 32kV DC (a tensão
máxima da minha fonte). Como eles são
ligados em
série na máquina de Wimshurst tenho a certeza de
que pelo
menos 64kV de isolação eles deverão
ter (supondo
uma distribuição igual de tensão
já que a
capacitância deles é aproximadamente mesma). O
problema
é que o vidro mostrou-se inadequado para minha
aplicação, pelo menos assim, sem verniz. A
corrente de
fuga apresentada é alta, acredito que por causa da
condensação de água no mesmo. Por este
motivo
abandonei este projeto, partindo para uma solução
com
potes de plástico.


Garrafas lindonas mas com alta fuga - não deram certo!
Segunda tentativa:
Adquiri dois potes de
plástico,
usados para guardar algodão, em um supermercado. Revesti os
potes com alumínio aderente por dento e por fora, e torneei
tampas de acrílico transparente para fechar os
mesmos.
Torneei também uma base de madeira redonda com um rebaixo no
centro, envernizer e aparafusei estes pés na base da
máquina. A conexão do terminal de aço
5mm com a
placa interna do capacitor eu fiz usando uma corrente dourada usada em
bijouterias, e o conjunto ficou bom. Testei estes capacitores
preliminarmente; agora, eles ficam carregados por muito tempo,
diferentemente dos que havia feito antes. Medí sua
capacitância com minha ponte RLC, e encontrei 119 pf em um e
121
pf no outro, valores que estão dentro do que eu esperava, e
adequados à màquina. Entretanto suas
dimensões
foram inadequadas à tensão gerada na minha
máquina. Faiscas saltavam entre as placas, contornando a
borda
do capacitor assim construído. Funcionou, e talvez ficasse
bem
em uma máquina com discos de uns 30 centímetros,
mas
não na minha máquina atual!
Um
pote de
algodão foi usado na
segunda versão das minhas garrafas de leyden. Observe a
corrente
que faz a conexão com a placa interna. A máquina,
como ficou com estes capacitores baixinhos.
Terceira tentativa:
Resolvi
cortar dois canos de acrílico (tubos e acrílico)
de 20 cm
de comprimento e colar uma tampa de acrílico na parte de
cima.
Na parte de baixo cortei um disco de madeira que envernisei e parafusei
na base da máquina. O conjunto assim construído
serviu de
sustentação para os coletores de carga e
terminais de
descarga. Ficou lindo! Entretanto, devido ao fato dos tubos
não
serem fechados no fundo com material melhor isolante que a madeira,
à medida que a tensão subia durante a
operação da máquina podia observar
streamers de
fuga. isto limita a tensão máxima obtida com a
minha
máquina. Pretendo substituí-los no momento em que
conseguir copos fechados de acrílico ou plástico.
A
máquina com os capacitores
da terceira tentativa. Ficou bonita, mas com
limitação no
desempenho por cusa da fuga entre a placa interna e a base de madeira.
Além disto o acrílico começou a
trincar, acredito
que por causa do stress devido à alta intensidade do campo
elétrico entre as placas.
Preparação
do eixo dos discos e Bosses
(Disk and bosses preparation)
Esta é
outra parte
relativamente
complicada na fabricação da máquina de
Wimshurst:
O mecanismo de permite aos discos girarem em sentidos contrapostos.
Seguindo os conselhos dados pelo Professor Antonio Carlos Queiroz optei
por utilizar rolamentos ao invés de buchas no eixo dos
discos.
Em tarugos de nylon foram escavados buracos aonde foram encaixados
rolamentos (extraídos de velhos motores) e tudo foi montado
sobre um eixo de 1/4 de polegada. Com isto se conseguiu que
não
houvesse folga nos discos, podendo então
montá-los um
bem próximo do outro. Pode-se fazer isto com
buchas
também. O problema é conseguir um
mínimo de folga,
além do rápido desgaste que pode ocorrer em
função do material utilizado. Na minha quarta máquina
usei bosses de nylon diretamente sobre o eixo de aço, que
funcionam bem também, mas o atrito é maior.
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página sobre minha terceira máquina.
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