Minha primeira

 máquina de Wimshurst





A máquina de Wimshurst é provavelmente a mais popular e conhecida das máquinas eletrostáticas. A maior parte dos livros de ciências antigos fazem alusão a esta máquina, e sua popularidade pode ser atribuída ao expressivo resultado que se obtem com seu funcionamento, sua operação confiável e o grande numero de máquinas que existiram nos laboratórios de ciências de escolas e universidades. Chegamos a ter um fabricante destas máquinas aqui mesmo no Brasil, se chamava Otto Bender, era uma indústria em São Paulo que fabricava kits didáticos.



A máquina de Wimshurst é uma máquina que funciona primariamente pelo princípio da indução eletrostática. Um par de discos de material isolante colocado próximo é girado em sentidos opostos e neles são separadas cargas em extremos dos discos (linha do equador). Estas cargas são multiplicadas à medida que giram os discos, e o potencial relativo entre os extremos dos mesmos cresce exponencialmente até que ocorra a ruptura do ar ocasionando faíscas. Isto tudo em tese, como nos livros de física! Na prática, até conseguir um resultado aceitável, tive que tentar (e aprender!) por algumas semanas!

Não é meu objetivo desestimular as pessoas a tentar construir este dispositivo, muito antes pelo contrário. Mas preciso dizer - não é uma empreitada fácil! Começando pela escolha do material, passando pela mecânica e terminando em sua operação, existem manhas e dificuldades que só quem tenta pode confirmar.

Mas os resultados valem o esforço! Mesmo a minha pequena máquina, feita sem que eu tivesse acesso a muitos recursos (ferramentas), foi capaz de gerar faíscas de quase 12 cm, suficientes para "assombrar" minha atenta plateia de alunos.

Mas afinal, quais são estas dificuldades? Abaixo preparei uma lista que pode ajudar o candidato a construtor:

1) Discos - discos de acrílico são ideais. Cortar um disco bem redondo e furar exatamente seu centro é bem mais difícil do que parece à primeira vista! Uma alternativa simples é usar um velho par de LP´s de música (discos de acetato), que já são redondos e furados no centro...
2) Setores - são as peças de metal coladas nos discos. Eu prefiro usar fita alumínio adesiva, mas ela é cara. Uma solução é cortar os setores de forma de pizza e colar com cianoacrilato. mas dá mais trabalho! O ideal é fazer um molde, desenhando o disco e os setores no computador, imprimindo e recortando para ter um molde com o espaçamento adequado. Use o programa WMD do professor Antonio Carlos Queiroz para definir o numero de setores e espaçamento.
3) Capacitores ("garrafas de Leyden") podem ser feitas com garrafas PET para pequenas máquinas, tubos de PVC com tampas coladas, potes de algodão, copos plásticos. Evitar vidro e plásticos com cor por causa dos corantes que podem fazer o material condutor. Não é preciso encher o capacitor ! Basta colar uma folha de metal (papel alumínio de alimentos) por dentro e outra por fora do material isolante!
4) Bolas / esferas - o grande problema! Eu uso puxadores de móveis, mas são caros; outra alternativa são as bolas chinesas de exercícios para as mãos. Uma ultima alternativa é tentar fazer voce mesmo, mas é difícil... Na minha primeira máquina usei puxadores velhos de um antigo roupeiro. Note que são de metal, e não de plástico revestido (metalizado).
5) Eixos - o melhor mesmo é usar eixos prontos. Velhas impressoras de computador são uma possível fonte para os eixos. Sem um torno é difícil conseguir polias que girem sem folga.
6) Coletores de carga: eu recorto usando uma tesoura serrilhada que comprei para este fim. Existe em lojas de artesanato para cortar tecido, mas cortam bem latão fino e alumínio.
7) Correias: correias de borracha são difíceis de conseguir em grande tamanho. Eu uso correias de couro, daquelas usadas nas antigas máquinas de costura. Mas em algumas lojas de eletrônica pode-se conseguir correias de borracha que servem se a máquina for pequena.

Uma dica importante é : não tenha pressa! Este não é um projeto para se fazer em um dia! Mesmo com alguma experiência levo alguns meses para concluir um projeto. Minha primeira máquina, esta simpels que apresento abaixo, foi construída em 3 meses, pois a medida que ia montando ia descobrindo novos problemas que implicaram em refazer muitas peças! Clique aqui e assita a um pequeno vídeo com minha primeira máquina de Wimshurst em operação em diferentes etapas de sua montagem, e observe o aumento no tamanho das faíscas à medida que fui melhorando-a!








Abaixo reproduzo algumas fotos de minha primeira máquina de Wimshurst. Como pode-se verificar, sua construção foi bastante rudimentar, usando partes e peças usadas, mas os resultados foram muito bons: faíscas de até 7 cm foram obtidas em dias secos (depois de muitas modificações e melhoramentos!).



Ela tem algumas particularidades interessantes. Como não consegui fazer escovas suficientemente flexiveis e resistentes, optei por colar calotas cromadas sobre os setores e realizar o contato dos neutralizadores através de pequenas molas. Apesar do ruído gerado, o sistema mostrou-se bastante resistente e os alunos da escola que a utilizam já comprovaram a robustez do conjunto (!!!). Ela foi sendo aperfeiçoada à medida em que fui utilizando-a.

Nas fotos abaixo voce poderá constatar algumas destas mudanças: primeiro nos neutralizadores, depois nos coletores de carga.


As primeiras garrafas de Leyden que construí foram implementadas em pequenas garrafas de refrigerante PET. Elas funionaram bem no princípio, mas logo que melhorei o desempenho da máquina elas furaram o dielétrico devido ao incremento de tensão obtido. Estimando a tensão necessária para isto acontecer concluí que se pode usar estas garrafinhas de plástico para diferenças de potencial de até, no máximo, 20 kV (como elas são colocadas em série na máquina suportam tensões de até 40 kV supondo uma distribuição igual de cargas em ambos os pólos).


Esta máquina é usada hoje para demonstrações em uma escola pública em Porto Alegre (Colégio Estadual Ivo Corceuil). Depois dela construí uma segunda máquinauma terceira e quarta máquina de wimshurst, até chegar em um conjunto cuja aparência e desempenho estivessem de acordo às minhas expectativas .



Primeira versão de minha primeira máquina - nela os neutralisadores
tocam o disco através de cordas de aço de violão (esquerda), mas quebravam
com frequencia. Testei então roletes (direita) mas o barulho foi muito grande.

 
Na figura podem ser vistas as primeiras garrafas de Leyden, construídas usando garrafas PET de refrigerante

Todas as conexões foram feitas com tubos de cobre (destes usados em refrigeração) soldados com estanho; as esferas são puxadores de um velho guarda-roupas, doadas por minha mãe (obrigado, totoquinha!;-0). os setores são recortados de uma folha de alumínio, as semi-esferas coladas nos setores são rebites de calças jeans. Os eixos são de cobre, e sobre eles giram peças de teflon (meu primeiro trabalho em meu pequeno torno). As correias são de borracha, do tipo usado como correia em gravadores de áudio. Os discos, de 30 cm de diâmetro, são de acrílico.

 
Detalhe da fixação dos terminais de descarga e os novos coletores de carga
 

As "garrafas de leyden" (capacitores) foram construídos usando cano de pendurar toalha de banheiro (de plástico transparente) revestidos por dentro e por fora de folha de papel alumínio, de cozinha. Tampos superior e inferior foram feitos torneando-se peças de teflon.
 


Detalhe do eixo inferior e correias

Cheguei a obter valores de tensão de até cerca de 55kV, medidos com meu voltimetro eletrostático.



Aula que apresentei na escola Ivo Corceuil, usando a máquina de Wimshurst. A aluninha, Alice, ficou muito impressionada com as faíscas do "professor Luiz" !




Outra foto, mostrando também o primeiro gerador Van de Graaff que construí e doei para a escola.




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