Há muito
tempo desejo realizar alguns testes com campos elétricos e
magnéticos em altas freqüências. Em
função do
elevado custo de medidores de campo
eletromagnético, e por haver trabalhado por muitos anos na
empresa alemã Wandel
& Goltermann, e lá haver
estudado e conhecido os medidores de campo eletromagnéticos da
família EMR, decidí projetar e construir meu
próprio instrumento. Sua finalidade é determinar o campo
elétrico e o
campo magnético existente em um dado ponto (uma região,
na verdade) do espaço.
Para tal fim o medidor em questão
determina o campo elétrico usando 3 antenas dipolo (para os
eixos x, y e z) com
comprimento de onda bem menor que o do espectro que deseja-se avaliar,
e 3 loops (também com orientação x, y e z) para
determinar o campo magnético. O sinal induzido nestes sensores
é retificado, amplificado e medido - parece bem simples, mas
na hora de implementar descobri que não é!
O texto a seguir resume a implementação que realizei e
funcionou para meus propósitos.
Main frame - o medidor propriamente dito
O main frame do instrumento foi construído usando a
mecânica de um antigo medidor de nível da empresa WGB
Eletrônica de Precisão, o TN-10. Eu dispunha da sucata de
um instrumento destes e ela me pareceu ideal para meu projeto. A
implementação foi feita em uma placa de circuito impresso
perfurada que cortei para encaixar exatamente no lugar de uma das
placas originais deste instrumento.
Placa com o circuito do medidor.
O componente DIP 8 pinos ao lado do capacitor laranja
é o conversor A/D de 12 bits.
Nesta placa forma montados o microprocessador, um conversor A/D de 12
bits, uma chave CMOS para selecionar a entrada de sensor a ser ligada
ao conversor A/D, um driver para o display LCD, um regulador de
voltagem e uma porta serial para registro externo e
programação do micro. Montei tudo com cabos
flexíveis, de modo a poder realizar facilmente qualquer
modificação. A ligação do display à
placa foi feita usando um cabo IDE de HD de computador - isto permite
remover a placa sem ter que desmontar o circuito do display. Devido ao
uso da
chave MOS posso selecionar uma de seis entradas (X,Y ou Z de campo
elétrico ou magnético) por vez para medir.
Além disto seleciono também uma amostra da
tensão da bateria que alimenta meu instrumento de forma a poder
medir sua
tensão e avisar o operador se ela está abaixo de 7,8
volts (o mínimo que meu instrumento precisa para funcionar
corretamente).
Placa montada na caixa. O chip
vermelho é o processador, e bem à esquerda, em baixo, o
conector RS232.
O mainframe
é, na
verdade, um medidor de tensão contínua (um
voltímetro) com seis entradas separadas, que lê cada uma
delas e calcula depois a soma quadrática das 3
correspondentes ao sensor de campo elétrico ou magnético
e extrai sua raíz.
O processador seleciona as entradas X, Y e Z de cada grandeza
elétrica (tensão e corrente), o A/D converte o valor
analógico em cada uma das entradas em uma palavra de 12 bits que
o processador lê e armazena; em seguida ele calcula

Esta configuração é
interessante porque como as 3 medidas são feitas rapidamente o
resultado do campo elétrico ou magnético é
determinado sem que hajam erros causados por causa da
orientação (direcionalidade) do sensor.
Teclado e display
O mainframe sendo montado. Repare
o conector RS-232 - USB
que foi conectado na lateral da caixa.
Mainframe sendo fechado, mas
ainda sem a placa de conexão da antena. Ao lado está
encaixado o conversor RS-232 - USB que permite fazer o download do
software do medidor.
Sensor para o campo elétrico - baixa freqüência
Começando pelo desenho das antenas dipolo - que tamanho tem que
ter? Decidi medir campo elétrico alternado até 100 kHz,
com amplitude de até 20 V/m. Meus dipolos tiveram que ser
cortados e
experimentados até conseguir o menor tamanho possível e
ao mesmo tempo um nível de sinal suficiente para ser medido. Os
diodos usados para retificar o sinal induzido são do tipo
"bigode de gato" (de contato de ponta) por causa da baixa tensão
direta desenvolvida sobre eles quando conduzindo. Optei pelos velhos
AA-119 que tinha em estoque em meu laboratório. Em testes com um
gerador de sinais e um osciloscópio, cheguei fácil a 20
MHz com pouca perda, o que permite afirmar que meu medidor funciona com
resposta em frequencias plana até os 100kHz pretendidos.
Sensor para o campo magnético - alta freqüência
Construí bobinas de uma única espira e usei diodos
shottky para lograr medir campos magnéticos de alta
frequencia. Com diodos Philips BAV-10 consegui medir campos
magnéticos até a faixa de fornos de microondas (2,4 GHz).
Antena dipolo e loop de corrente
- os diodos estão sendo montados.
Um cubo com as antenas foi
construído. Repare os diodos schottky que
atravessam as superfícies do cubo por furos.
O cubo com as antenas é montado dentro da semi-esfera
plástica que serve de proteção. O plástico
usado pouco altera a sensibilidade do meu medidor - testei a antena com
e sem a proteção.

Vista da haste e conectores de fixação e
interconexão. O plug banana serve apenas para garantir o suporte
mecânico; as conexões elétricas são feitas
através do conector din miniatura.
A antena pronta. Foram usadas
duas calotas plásticas, usadas em ventiladores de teto.
Vista do conjunto medidor e
antena.

O aparelho acondicionado na maleta de transporte do antigo TN-10.
Calibração do
medidor de campo em microondas
Sem
dúvida esta é a parte mais difícil. Para uma
calibração efetiva eu
necessitaria de uma sala especial, conhecida como gailola de Faraday,
aonde os níves de campo eletromagnético indesejados, tais
como sinais de TV, FM, etc. estivessem bastante reduzidos.
Como tal dispositivo não me é acessível, decidi
calibrá-lo em espaço
aberto mesmo.
O procedimento que realizei foi simples - liguei o medidor, constatando
que a sua leitura era pequena (quase zero) indicando não haverem
campos intensos no local aonde eu estava naquele momento. Em seguida
apliquei um sinal conhecido e realizei os ajustes.
Como fonte de sinal para a calibração na faixa de
microondas
usei um forno de microondas doméstico no qual tirei a tampa
superior e fiz um furo lateral de
aproximadamente 3 cm de diâmetro. A uma distância conhecida
do forno (1 m)
coloquei um medidor de campo calibrado (EMR-300, da Wandel &
Goltermann) e dentro do forno coloquei uma grande panela de vidro com
água, cuja quantidade fui ajustando de forma a reduzir a
quantidade de ondas estacionárias dentro do
forno e obter um sinal irradiado pelo furo o mais constante
possível.
Sem este procedimento com a panela de água o sinal que sai do
microondas oscila bastante por causa do padrão de
estacionária que se estabelece dentro de sua cavidade e por
causa da dilatação do metal da cavidade que acaba
dissipando sob a forma de calor parte da energia que recebe pela
microonda.
O medidor sendo calibrado. Ao fundo pode-se ver o forno microondas
"arrombado" que serviu de gerador de sinal.
Após esperar o nível de sinal irradiado estabilizar (o
magnetron do forno de microondas precisa de pelo menos 3 minutos
funcionando para aquecer e parar variar a potência de
rádio freqüência gerada) medí o campo
elétrico e magnético com o medidor de referência
(EMR-300); em seguida coloquei meu medidor em seu lugar e ajustei o
fator de calibração de forma a obter uma mesma
leitura nele. Girando meu medidor nos 3 eixos pude constatar que a
leitura
da soma quadrática praticamente não se altera, embora os
valores
individuais de x, y e z se modifiquem bastante. Meu medidor funciona!
O
display do meu instrumento. Os valores que aparecem em x, y e z
são na
verdade o produto do campo elétrico pelo magnético, o que
dá mW/m^2.