Máquina Eletrostática
de Bonetti   
(Bonetti electrostatic machine)





Em dezembro de 2007, após ler sobre a construção e restauraçaõ de uma máquina de bonetti no site do Professor Antonio Carlos Queiroz, da UFRJ, e discutir sua possível construção com ele ( www.coe.ufrj.br/~acmq/bonetti.html ) decidi aventurar-me na construção de uma. A máquina de Bonetti é uma versão sem setores da máquina de Wimshurst, sendo capaz de gerar corrente e tensões muito mais elevadas que esta, conforme pude constatar. Uma comparação é apresentada abaixo. Observe que apesar de que os discos tem tamanhos um pouco diferentes e a sua rotação também não ser a mesma (340 RPM foi o máximo que consegui girar na máquina de Wimshurst pois minha máquina é acionada com manivela enquanto a de bonetti é movida por motores elétricos, tudo medido com um tacômetro sem contato) a diferença de corrente de saída é muito expressiva, confirmando a expectativa de que ela possa ser da ordem de 2 vezes a da máquina de Wimshurst.

Tipo de máquina Diametro dos discos Numero de setores Rotação aproximada dos discos (RPM)  Corrente de saída
medida
Tamanho máximo da faísca gerada (62% RH) sem garrafas de Leyden e esferas de 4,5 cm
Máquina de Wimshurst 45 cm 18 340 22 µA 7 cm
Máquina de Bonetti 55 cm 0 400 87 µA 23 cm

No final desta página apresento algumas fotos com o processo de construção da máquina e os resultados obtidos (fotos com longo tempo de exposição tomadas com máquina Sony de 4.2 MP e tempo de aquisição de 10 segundos). Decidi construir minha máquina com motores, ao invés de manivelas, pois assim ficaria mais fácil fazer experimentos e medições. Como ela é uma máquina sem a pretenção de se parecer com as máquinas antigas, mas sim uma tentativa de obter grandes correntes e faíscas, não me importei de usar materiais mais nobres, como o acrílico, na montagem das torres de fixação dos motores - meu objetivo aqui foi o de obter a mais alta tensão e corrente possível.



Os discos foram cortados em acrílico de 4 mm de espessura e com 55 cm de diâmetro. O centro tem um furo de 6 mm. Há vários problemas relacionados com os discos. O primeiro é conseguir cortar o disco perfeitamente circular. Optei por cortar o disco com formato aproximado e depois desbastar as bordas usando uma lixadeira e fixando o disco a um eixo. Girando-se assim o disco sua borda é desgastada por igual até que o mesmo seja perfeitamente circular.



Descobri então que o acrílico tem a particularidade de apresentar grandes diferenças de espessura! No meu caso os discos chegavam a ter mais de 1 mm de difereça de espessura de um lado do disco para o outro! Isto torna praticamente impossível faze-los girar em rotações elevadas, como era meu plano, pois os mesmos vão vibrar muito. Precisei então balancea-los, e a melhor forma de fazer este balanceamento que encontrei foi a seguinte: Os discos são fixados a um eixo em seu centro (no meu caso o eixo dos próprios motores) e são colocados em posição vertical, sendo girados levemente. Observei facilmente que eles tendem a parar sempre com um lado para baixo, obviamente o lado com mais massa (espesso). Passei a fazer rebaixos (buracos) com uma broca de 10 mm (os rebaixos não atravessam os discos, tem pouco mais de 1 mm de profundidade) neste lado mais pesado de tal forma a equilibra-los, de modo que eles parem em qualquer posição, sem tendência a parar com um lado em particular para baixo. Consegui desta maneira que a massa dos discos ficassem mais regulares e os mesmos deixassem de vibrar quando em movimento. Outra alternativa será colar pesos nos discos (a exemplo de como se balanceiam rodas de automóveis), mas achei mais interessante que este balanceamento fosse o mais "limpo" possível. Note que dependendo da diferença de massa é necessário fazer um grande numero de rebaixos nos discos.




A base de fixação da máquina foi construída de acrilico com 10 mm de espessura conforme o desenho acima. As peças foram coladas com SuperBonder (que dissolve o acrílico e solda as peças perfeitamente). Depois esta base foi parafusada em uma táboa com 35 cmm x 60 cm, que serve de sustentação para toda a máquina. Quatro pés de borracha foram parafusados sob esta táboa, desta forma o conjunto não sai "andando" por sobre a mesa quando altas rotações são aplicadas aos discos.
 


Vista do suporte da máquina já colado, ao lado da minha máquina de Wimshurst.



Fabriquei no torno duas peças de teflon circulares com diâmetro externo de 100 mm e interno de 50 mm, mesmo diâmetro dos motores que usei em minha máquina, e com 10 mm de espessura (ela fica com o fiormato de uma grande arruela de teflon). Fiz então 3 furos na sua borda, dois para fixar os neutralizadores e um para fixar um parafuso de ajuste de posição. Internamente nestes furos de 4 mm fiz rosca M4, e nas extremidades das barras neutralizadoras fiz rosca M4 também. Unindo eletricamente as barras neutralizadoras coloquei uma cinta de latão de mesma largura que a borda da peça de teflon. Esta montagem ficou interessante pois permite que se ajuste a posição (ângulo) entre os neutralizadores, e uma vez ajustadas as peças podem ser mantidas presas através do aperto do parafuso de fixação.

As peças de teflon foram então colocadas nos motores e estes fixados nas torres de fixação através de 4 parafusos com cabeça allen, conforme pode ser visto na foto acima. Observe que a peça de teflon pode girar em torno do motor.



Bosses de teflon foram torneados e fixados aos discos de acrílico por 3 parafusos e cola. Estes bosses são peças cônicas com 80 mm de comprimento, e cuja extremidade mais fina  é perfurada para encaixar justa no eixo do motor. Fiz furos de 5 mm e rosca M5 nestes bosses, de forma a poder colocar aí um parafuso que aperta o eixo do motor, fixando firmemente a peça. Isto é necessário porque o momento dos discos girando a altas rotações é elevado, e temo pelo risco de se soltarem. No eixo dos motores fiz rebaixos na posição correspondente ao parafuso de fixação, de tal forma que ao apertar os parafusos nos bosses estes penetrem um puco dentro do eixo do motor, impedindo assim que um eixo gire em relação ao outro.



Nas pontas das barras neutralizadoras coloquei uma lâmina de latão com um lado serrilhado com uma pequena esfera de plástico no extremo externo. Esta esfera reduziu bastante a fuga por corona de um disco ao outro, fenômeno que constatei ao ligar a máquina pela primeira vez. As lâminas de latão tiveram o corte serrilhado feito com uma tesoura de artesanato adquirida em uma loja de tecidos e foi soldada em uma pequena barra de cobre perfurada para encaixar na barra neutralizadora e que tem 2 pequenos parafusos para aperto. Esta barra de cobre com parafusos foi retirada de uma barra sindal (barrinha de conexão usada na ligação de chuveiros elétricos) e tem a vantagem de permitir ajustar a posição dos pentes neutralizadores.



Esferas de metal de 4,5 cm de diâmetro foram usadas como terminais de alta tensão. Estas esferas são usadas para massagem das mãos (bolas  chinesas) e são de aço e ocas, e perfeitamente polidas. Fiz um furo de 4 mm com rosca M4 em cada uma e fixei uma tampa de PVC para cano de água quente nelas com um terminal de latão para conexão.



O conjunto esfera-tampa foi fixado em um cano de PVC para água quente de 450mm, ligado a um "T" e a mais um pedaço de cano de 250 mm, e terminado por uma tampa fechada. Na extremidade livre do "T" colei um pedaço de cano de 50 mm de comprimento. Soldei um fio em um terminal que fica firmemente conectado à esfera por um parafuso e passei por dentro do cano, saíndo pelo tubo curto fixado ao centro do "T" conforme a foto. Depois de tudo ajustado apliquei cola para canos de PVC nas peças para assegurar sua rigidez.


No pequeno cano que sai do centro do "T" fiz um pequeno recorte conforme a foto. Esta peça recortada é introduzida em uma outra tampa de cano que por sua vez é parafusada na peça de acrílico que dá suporte aos coletores de carga. A idéia é a de que estes terminais de descarga possam ser girados (um pouco apertados por causa do atrito) em relação à tampa fixa, que também é furada e tem um pequeno parafuso de plástico que a atravessa e entra na fenda feita e mostrada acima. Desta forma o terminal pode ser girado o mesmo ângulo definido pelo corte feito. Isto permite delimitar a faixa de giro (ângulo) que podem ser movidos os terminais e impedir que os mesmos saiam de sua posição, encaixados na tampa fixa.

   

Duas peças de acrilico formando um "V" foram fixadas à torre do motor para servir de suporte aos pentes coletores de carga, e foram cortadas em acrílico de 6 mm que depois teve internamente colado um reforço para evitar que se movessem com a máquina em operação ou quando se movimentassem os terminais de descarga. Em cada extremidade foi fixado um tampão de cano de PVC de 100 mm que serve como blindagem anti-corona. Dentro destes tampões foram fixadas barras de latão com serrilhado iguais aos neutralizadores. Atravessando as tampas de 100 mm estão parafusos de 6 mm que prendem de um lado estes tampões e de outro um tampão de 25mm de cano de água quente aonde vão presos os terminais de descarga, e neles estão terminais de latão que são soldados aos fios que saem dos terminais de descarga. Na foto pode-se ver a máquina pronta, mas ainda sem as garrafas de Leyden, além da fonte de alimentação usada para acionar os motores. esta fonte, artesanal, tem capacidade para gerar de 0 a 30 volts (ajustáveis) CC e 5 ampéres, e por meio dela posso variar a velocidade de rotação. O consumo da máquina, quando exitada, a 1000 RPM, é da ordem de 3,2 ampéres @ 20 volts.

Os motores usados foram retirados de uma máquina leitora de fitas da IBM, usada em antigos computadores /370 que encontrei na sucata. Dois terminais (bornes) banana foram fixados na base para a conexão dos motores à fonte de alimentação. Não coloquei terminais coletores de carga do outro lado da máquina. A razão disto foi a pouca diferença na corrente gerada que medi coletando carga em um ou nos dois discos, e o fato de que fica muito mais bonito se observar a descarga nos discos no escuro se os mesmos estão livres, e as tensões obtidas foram suficientemente elevadas desta maneira.

Montei duas garrafas de Leyden (capacitores) usando cano de água de 75mm (cano de PVC marrom). Escolhi este material porque ele é mais espesso que o PVC branco (usado em esgotos) já que a tensão estimada em minha máquina ultrapassa os 250 kV. Usei tampas para fechar ambos os lados. O contato entre a placa interna e o terminal da máquina é feito inserindo o arame de latão que sai do capacitor em um pequeno furo que fiz no suporte do coletor de cargas, conforme pode se ver na foto abaixo.

 


Resultados obtidos até agora ( 25/02/2008)


A máquina construida desta maneira é sem dúvida a máquina mais potente que já experimentei.  Ela não parte sozinha. Após ligar sua alimentação e deixar os motores atingirem cerca de 400 RPM, basta colocar o dedo em contato com um dos discos , atritando-o brevemente e já se ouve o ruído característico e sente-se um forte cheiro de ozônio. Não tive dificuldade em faze-la iniciar mesmo com umidade de mais de 70%. Impressiona o ruído causado pela alta tensão e o aumento significativo de corrente necessária para fazer a máquina seguir girando à mesma rotação. Pos sugestão do Prof. Antonio Carlos afastei os discos, mantendo-os a mais ou menos 15 mm um do outro, obtendo então uma operação mais suave, requerendo menos potência dos motores, sem redução observável na corrente de saída, que foi medida entre um dos terminais e os neutralizadores (que são interligados e aterrados). Os terminais de descarga (esferas) podem ser afastados um do outro a até cerca de 23 cm e ainda se observam descargas entre eles e com distâncias inferiores a 10 cm as descargas são quase contínuas, conforme foto abaixo.



O que mais impresiona nesta máquina é observá-la em operação no escuro. Embora as fotos abaixo deem uma idéia, devido à baixa intensidade luminosa perde-se muito dos eflúvios que emanam do terminal positivo para o ar, além de pequenas e longas descargas de curta duração que ocorrem o tempo todo.




Pode-se na foto ver a luminosidade ocasionada pelos portadores de cargas na superfície do disco e a fuga causada pela presença do parafuso de fixação dos neutralizadores no meio do disco (já eliminei este problema cortando o parafuso e embutindo-o dentro da peça de teflon), além da luz mais intensa nas pontas dos pentes neutralizadores.



A foto acima foi tomada com mais proximidade do neutralizador, que tem cerca de 80 mm de comprimento. Como pode-se ver a descarga tem mais de 150 mm de comprimento na superfície do disco!





Faíscas muito intensas são obtidas entre as duas esferas quando coloco 40 pf  (80 pf cada garrafa de Leyden) entre os terminais de saída da máquina, obtendo assim  descargas com comprimentos que chegam a mais de 13 cm com 70% de umidade do ar.




Grandes faíscas, com 23 cm ou mais são obtidas facilmente quando adiciono garrafas de Leyden à minha máquina e com uma pequena esfera sobre o terminal positivo. Estes capacitores foram implementados em tubos de PVC de água (marrons, mais grossos que os de esgoto, que são brancos) com cerca de 45 cm de comprimento, e com tampas em ambos os lados. Em seu lado externo colei uma faixa de 5 cm de largura de alumínio (terminal externo) e do lado de dentro introduzi uma lata enrolada que é ligada a um eixo de latão. Este eixo passa por um furo no terminal superior de forma a dar acesso à placa interna do capacitor. Ficaram com 80 pf cada um, e não demonstraram tender a furar nos testes que fiiz com minha máquina. No terminal positivo (esfera) colei um parafuso de nylon (colado com a cabeça encostada na esfera, de forma que sua ponta fique livre apontando para fora do raio dela) e nele parafusei um pequena esferinha de metal previamente furada e na qual fiz a mesma rosca do parafuso de nylon (M3). Com isto posso ajustar a distância entre as esferas grande e pequena. Isto possibilitou aumentar o comprimento das faíscas obtidas de maneira expressiva. É interessante observar que a faísca é sempre mais grossa próxima ao terminal negativo, afinando à medida que se aproxima do terminal positivo (o que tem a bolinha pequena) como pode-se ver na foto.

Última atualização: 09/4/2008

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