Construindo uma bobina de Tesla
de estado sólido (SSTC)
Nem
só de máquinas eletrostáticas vive o homem...
Fiquei curioso sobre os efeitos de altas tensões e altas
freqüências após construir minhas máquinas eletrostáticas de Wimshurts. Após ler inúmeros artigos e visitar sites na internet
decidi “por a mão na massa” e construir minha primeira bobina de Tesla com
excitação por circuito eletrônico, a chamada SSTC – solid state tesla coil (ao invés de um circuito ressonante constituído por
transformador de alta tensão, capacitor e gap, a tradicional tesla coil). Este
site apresenta o detalhamento do projeto, construção e
os resultados obtidos. Não tratarei aqui da teoria envolvida
pois esta está fartamente documentada na internet. Ao invés disto minha
intenção aqui é fornecer detalhes de sua construção.
Bobinas
de Tesla são transformadores elevadores de tensão que tem circuitos sintonizados
no secundário (normalmente), mas que também tem versões com o primário
sintonizado (as chamadas DRSSTC – double resonance solid state tesla coil). A minha foi projetada para funcionar na primeira
modalidade (ou seja, apenas com o secundário sintonizado).
Diagrama de blocos simplificado
Como pode ser visto no diagrama
de blocos, a eletrônica da SSTC por mim construída é relativamente simples.
Consiste de um módulo de entrada, responsável por receber o sinal proveniente da
própria bobina, que o conforma (deixa “quadrado”) e que depois é amplificado
pelo pré-driver e pelo módulo de saída. Entre o
driver e a saída há um transformador isolador cuja construção é detalhada
mais adiante. A etapa de saída, em configuração “half bridge” (meia
ponte) utiliza dois MOSFET´s com características adequadas à esta aplicação (alta capacidade de corrente e baixa
resistência quando conduz). Toda esta eletrônica serve para gerar um sinal com o
menor tempo de transição (subida e descida) possível e com uma freqüência cujo
valor corresponda à freqüência de ressonância do secundário. Ao invés da antena
poderia ser ligada à entrada do conformador de sinal um gerador de funções, sendo a
freqüência manualmente ajustada. Ocorre que dada a
baixa capacitância entre enrolamentos e do domo no secundário a simples presença
de objetos próximos muda esta freqüência, que tem que ser continuamente
ajustada. Da forma construída, minha SSTC ajusta a freqüência fornecida à bobina
secundária automaticamente devido à realimentação positiva provocada pela
captação do campo gerado.
Seu diagrama
esquemático está abaixo (clique aqui para o esquema em maior tamanho):
Descrição do
circuito
O campo eletromagnético gerado pela própria bobina de Tesla é captado pela antena na entrada do circuito integrado 74HC14. Este integrado é constituído de inversores com tecnologia CMOS, que apresentam boa velocidade de operação e alta impedância de entrada. Na entrada do primeiro destes inversores foi colocado um par de diodos para limitar a excursão de sinal de forma a evitar danos ao integrado na eventualidade de um sinal muito alto. Após passar por mais alguns inversores, de forma a assegurar que a forma do sinal a ser aplicado à saída apresente tempos de excursão (subida e descida) o mais curto possível o sinal já “quadrado” é aplicado a um ci 4049, que é composto de seis inversores com alta capacidade de corrente de saída, todos ligados em paralelo. Esta configuração procura assegurar uma baixa impedância de saída, e, por conseguinte, capacidade de sobra para fazer operar o par de transistores que o seguem. Estes transistores servem para baixar ainda mais a impedância e alimentar com corrente suficiente o gate do par de MOSFET´s no primário do transformador de excitação dos MOSFET de saída. Abaixo um oscilograma do sinal no gate do MOSFET IRF830. Pode-se observar que o sinal a 200kHz é bem limpo de oscilações e com tempos de transição bem curtos. Adiante comento porque isto é importante.
Após a saída dos transistores e a entrada dos MOSFET´S do driver há uma rede de diodos cuja função é a de assegurar um pequeno retardo entre o desligamento de um dos MOSFET e o início da condução do outro. Se isto não é feito (como em muitos circuitos que encontrei na web) durante um curto intervalo de tempo ambos os MOSFET estarão conduzindo, colocando a fonte de alimentação literalmente em curto circuito. Isto provoca uma dissipação desnecessária de calor, além de por em risco os componentes. A título de comparar o resultado, medi o consumo do driver com e sem os diodos; para uma mesma potência de saída, encontrei um consumo de cerca de 500 mA sem os diodos e menos de 70 mA com eles…Isto vale também para a etapa de potência.
Após os MOSFET´S do driver há um transformador construído sobre um toróide de ferrite, retirado de uma velha fonte de microcomputador. Aliás cabe aqui uma dica: a maioria do material empregado em meu projeto saiu de fontes de computador danificadas e de reatores eletrônicos para lâmpadas fluorescentes. Aí se encontram diodos rápidos, capacitores para alta voltagem, MOSFET´S, núcleos de ferrite, etc. Material este que não é muito fácil de se encontrar nas hoje já raras lojas de eletrônica... Este transformador serve para isolar o gate dos dois MOSFET de saída que estão em potenciais diferentes, mas necessitam ser excitados adequadamente. São seis espiras para cada enrolamento secundário, feitas com fio 14AWG, e duas espiras para o primário. O sinal do secundário deste transformador deve ser um sinal retangular limpo, sem oscilações, com amplitude de pelo menos 30 volts pico a pico. Usei diodos zener em oposição como forma de limitar a excursão de sinal entre gate e source dos MOSFET´S.
Foto do transformador driver e forma de onda no gate dos IRFP260 @ 200kHz
A etapa de saída, que apresenta configuração de meia ponte (“half bridge”) foi implementada com dois MOSFET´S IRFP260, que apresentam resistência baixa quando ligados (0,055ohms segundo o fabricante) o que reduz as perdas por efeito joule sobre os mesmos, além de permitir uma elevada corrente sobre o enrolamento primário do transformador de saída. Medi correntes de mais de 130 amperes de pico (!) sobre a bobina primária usando um shunt não indutivo e um osciloscópio..
Um capacitor de 22nF é mostrado no esquema e serviu para
sintonizar também o primário; com isto minha SSTC se transformou numa DRSSTC.
Como conseqüência os streamers (faíscas) que normalmente são de 10 a 15 cm
passaram a mais de 30 cm devido ao aumento brutal de corrente primária. Apesar
de espetacular, como minha bobina não foi pensada para uso intermitente mas sim
contínuo, rapidamente os MOSFET aqueceram… e consegui um par de IRFP260 em curo
circuito! Em uma próxima modificação vou acrescentar um interruptor ao
circuito; desta forma poderei manter a mesma funcionando com este capacitor sem
danificar a etapa de saída.
Material empregado:
Observar o motor de ventilador de mesa, aproveitado para girar o
cano de PVC através de sua caixa de redução (aproximadamente 20 RPM) e o
dispositivo construído para suportar o carretel com fio esmaltado (fio 28
AWG)
A montagem do
conjunto
Como é minha intenção usar esta bobina em minhas aulas de física, procurei construir a mesma da forma mais compacta e simples possível. Para isto usei uma caixa de fonte de computador, que já dispõe de ventilação, conectorização e tamanho adequado. Sobre a tampa da caixa fixei com rebites POP uma tampa de PVC de 150mm que serve de suporte para o enrolamento primário, e dentro desta, concentricamente, fixei uma tampa de 100mm. Desta forma posso colocar e retirar tanto o primário como o secundário sem dificuldade.
O circuito foi montado em uma placa universal de montagem, tomando o cuidado de revestir com solda as trilhas aonde esperava alta corrente; a mesma foi fixada por isolantes plásticos. Acrescentei um porta fusíveis de plástico no painel traseiro, e um pequeno disjuntor de 6 amperes ao painel frontal, além de LED´s vermelhos para alertar o operador sobre sua alimentação.
Os MOSFET de potência foram montados em terminais parafusáveis, para substituição mais fácil (acredite, voce VAI queimar muitos...)
Uma antena telescópica de rádio foi parafusada na tampa
de cima (sem isolação). Esta antena tem por função servir de terminal de retorno
para os streamers e tem a vantagem de ser ajustável em posição e comprimento,
facilitando a vida do operador em demonstrações. Também do lado de fora da caixa
fixei uma barra de terminais com acesso à entrada de antena do circuito e uma
saída de 12 voltas, pensada para a hipótese de desejar anexar mais algum
circuito externo.
Algumas faíscas...
Minha bobina foi reformada alguns meses depois para ficar com uma melhor apresentação. Abaixo uma foto de como ela ficou.

Gravei um vídeo com a demonstração desta bobina funcionando. Pode-se observar uma lâmpada fluorescente compacta acendendo em minha mão e as lampadas fluorescentes no teto de meu laboratório acesas por causa do forte campo elétrico irradiado. A freqüência de operação de minha bobina é de 298 kHz e a potência é de 75 watts de RF.