Restauração do Supermini e preparação para a conversão
Aproveitei a sua chegada para dar umas voltinhas antes de partir para o
projeto definitivo. Resolvi então enviá-lo à
oficina de um amigo para refazer alguns detalhes de pintura e revisar a
parte da mecânica que será aproveitada - freios, caixa de câmbio, diferencial. Afinal de contas, apesar
do ótimo estado, meu Gurgelzinho tem 17 anos de idade. Como
algumas peças da suspensão apresentavam sinais de
ferrugem, decidi desmontar tudo e submeter todas as peças
metálicas da parte de baixo do carro a um processo de jato de
areia para tirar a ferrugem e tinta velha e pintamos tudo com tinta
anti-ferrugem e depois de preto.
A caixa de câmbio foi desmontada por mim e limpa, ficando com
aparencia de nova. Os amortecedores foram substituidos por novos.
Um pouco de física
Confesse - você não achou que ia deixar de ver algumas
equações no meu site, não é mesmo? ;-)
Desenvolvi um resumo das considerações iniciais de meu
projeto, diferentemente da maior parte dos projetos que vi na internet,
que aparentemente são feitos sem maiores
avaliações ou considerações técnicas.
Uma estimativa da demanda de
potência necessária para movimentar um veículo como o Gurgel Supermini pode ser
efetuada a partir do cálculo das forças que atuam sobre ele quando em
movimento. Estas forças podem ser entendidas como sendo:

- · força
de resistência ao rolamento (Fr)
- · força
de arrasto aerodinâmico (Fa)
- · força
de resistência devido ao aclive (m.g.sen a)
- · força
de tração (Ft)
A
força resultante FRes é a força de tração gerada pelo
conjunto propulsor Ft (motor e agregados) menos as forças que se
opõem ao movimento e é o que efetivamente faz o veículo se movimentar:

Sabe-se que

Ou
seja, que

Desta forma, podemos escrever
Esta
equação está dizendo que a força
variável resultante no movimento do veículo (lado
esquerdo da equação) é igual à força
de tração menos todos os termos de resistência ao
movimento.
· FT
é
a força necessária para a tração do veículo;
· m é a massa do veículo;
· V é a velocidade do veículo;
· Vɷ é a velocidade
do vento;
· g é a constante de aceleração da
gravidade (9,8 m/s2);
· α é o ângulo de
inclinação da pista;
· fr é o coeficiente
de resistência dos pneus (0,013 para pistas de asfalto ou concreto);
· r
é
a densidade do ar (1,2 kg/m3 a 1 atm e 25 ºC);
· Af
é
a área frontal do veículo;
· CD é o coeficiente
de penetração aerodinâmica.
A estimativa da demanda de
potência a ser fornecida pelo mecanismo de tração (Pm) é estimada
pelo produto da velocidade com a força necessária para tracionar o veículo, ou
seja,

Como pode-se observar na equação
acima, a necessidade de fornecer potência ao veículo ao longo do tempo aumenta com:
· a
velocidade
· aumento
da declividade da pista
· demanda
de maior aceleração
· resistência
ao rolamento oferecida pelos pneus
· o
coeficiente areodinâmico do veículo.
Analisando cada um destes fatores
individualmente pode-se tentar trabalhar para minimizar a energia necessária
para movimentar o veículo.
Como premissa de projeto para o
pior caso, optei pelos seguntes parâmetros iniciais para o uso normal:
1) velocidade
de cruzeiro: 60 km/h
2) inclinação
de subida máxima: 5°
3) aceleração
de 0 – 60 km/h: 20s
4) pneus
de 145 mm de largura radiais, aro 13 (originais do Gurgel supermini)
5) um
coeficiente aerodinãmico de 0,5 (estimativa para o gurgel supermini
considerando seu formato)
6) área
frontal do supermini de aproximadamente 1,65m2
7) vento
frontal de até 10 km/h
8) massa
estimada de 620 kg
9) tensão
de alimentação de 72 V (6 baterias de 12V/150 A/h)
10 carga
máxima (passageiros + bagagem) 120kg
Substituindo alguns destes parametros encontramos o seguinte:
Força necessária para atender ao
parâmetro de aceleração:

Força necessária para vencer a
declividade de 5°:

Força necessária para vencer a
resistência ao rolamento dos pneus:

Força necessária para vencer a
resistência do ar (considerando vento contra de 10 km/h):
A Força necessária, considerando
aceleração de 0 a 60 km/h em 20s, rampa de 5°,vento frontal de 10 km/h e pneus
calibrados:
616N + 632N + 94N + 249N = 1592N
A potência total necessária é,
então, de
Ptotal=1600 N. 16,7
m/s ≈ 26,5 kW
ou aproximadamente 35 hp.
E a corrente máxima necessária
será de aproximadamente 370A.
Como
o motor não existe um motor 100%
eficiente, olhando as curvas de motores comerciais estimoque para
obter esta potência será necessária uma corrente
aproximadamente 10% a 20% mais alta, ou seja, cerca de 400 A.
Óbviamente esta não será a
condição de marcha do veículo, quando o primeiro termo (aceleração) se reduzirá
a zero. A 60 km por hora constantes no
plano, por exemplo, estimo a corrente necessária como sendo de cerca de 90
A, e a potência necessária neste caso será de cerca de 6,5 kW ou 8,7 hp.
Elegendo o motor a ser usado no projeto
Eu procurei obter informações que permitissem utilizar
algum motor disponível no Brasil em meu projeto. Só perdi
tempo! Muito se fala em kit´s nacionais para conversão,
há várias referências sobre empresas que fabricam
motores elétricos, mas efetivamente não se encontra nada
de concreto para realizar um projeto realmente funcional. Os
fornecedores para motores com especificações que
realmente sirvam em um projeto de conversão são
americanos ou chineses, o resto, ao menos por hora, é apenas
especulação e promessas.
Mandei e-mail´s à várias empresas e o máximo
que consegui foi a informação de que "irão
comercializar" kits e motores. Decidi então estudar as
especificações dos equipamentos americanos e chineses e
adquirir de uma vez um motor comercial.
Estudei as especificações de motores para corrente
alternada trifásicos comerciais usados em outras aplicações e concluí que os mesmos
são muito pesados para uso em um carro elétrico como o
que pretendo converter, especialmente se comparados aos motores
projetados para este fim e que existem à venda nos Estados
Unidos e China. Motores corrente contínua para a potência
que planejei não são encontrados aqui no Brasil,
provavelmente por não haver mercado para isto.
A primeira questão que aparece quando se estuda as
especificações de motores elétricos para a
conversão de um automóvel diz respeito à forma de
alimentação do motor. Existem vários tipos
disponíveis à venda - motores para corrente
contínua série (universais), paralelos, com campo fixo (
utilizam imãs), para alimentação com corrente
alternada trifásicos, etc. Cada motor tem caracteristicas mais
ou menos vantajosas, dependendo da aplicação que se
pretende dar ao mesmo. Concretamente os motores elétricos
série (universais) são os mais simples de usar, oferecem
ótima eficiência e desempenho. Por isto escolhi um destes
para meu projeto.
Entendendo as especificações do motor
Aparentemente o desenvolvimento de motores universais para a
conversão de veículos atingiu seu ápice em termos
de eficiência e qualidade. Estes motores, que hoje se encontram
à venda em diversos sites na internet, são
surprendetemente leves, potentes e com características de torque
e eficiência que dificilmente poderão ser melhorados.
Após consultar e estudar as especificações de
dezenas de tipos diferentes de motores optei pelo L91-4003 da ADC, pelo
qual paguei U$ 970,00.
Foto do motor que adquiri.
Detalhe da etiqueta do motor.
Não encontrei na internet muitos detalhes sobre este motor,
mas contactei o fabricante ADC que gentilmente enviou-me farto material
sobre o mesmo. Este material pode ser baixado clicando nos link´s
abaixo.
Esbarrei na primeira dificuldade - como interpretar todos estes
gráficos? Sou físico, ler gráficos não
é novidade, mas como interpretar toda a informação
disponível? Resolvi estudar em detalhes cada curva e após
entender tudo resolví explicar como se faz isto, de forma a
permitir que outros interessados possam entender e usar toda a
informação que é disponibilizada.
Os gráficos com as curvas dos motores elétricos
apresentam várias informações simultâneas
inter relacionadas. Vejamos como exemplo a curva do motor L91-4003
abaixo:
Pode-se observar que nela constam as seguintes informações:
- Tensão de trabalho do motor (na parte superior do gráfico - 120V - 0,03 I)
- Rotações por minuto (RPM)
- Eficiência (EFF)
- Corrente circulando pelo motor (AMPS)
- Potência efetivamente fornecida pelo motor (HP)
- Torque (FT/Lb)
Todas as informações acima estão relacionadas
entre sí pela informação de torque. Isto quer
dizer que para se saber qual é a corrente que deve circular
pelo motor para que ele efetivamente produza uma determinada
potência, devemos localizar a corrente no eixo com valores de
"Amps", correr uma linha horizontal até encontrar a curva "AMPS"
no gráfico, descer até o eixo de Torque, e na linha
vertical traçada para o valor de torque encontrado subir
novamente até encontrar a linha "H.P.", e a partir dela
traçar uma linha horizontal para a direita até encontrar
o valor correspondente no eixo vertical marcado com "H.P.".
Tomando o exemplo seguinte: com 350 A de corrente máxima qual
será a potência máxima que vou conseguir? Observe o
gráfico abaixo:
Partindo do valor de 350 A à esquerda tracei a linha vermelha
até encontra a curva "AMPS". Neste ponto tracei a linha vertical
verde que informa o torque em pés/libras (Ft/Lb). Esta linha
verde marca pontos de intersecção com a curva de
eficiência (EFF) e rotações (RPM). No exemplo dado,
a 350A e com um banco de , por exemplo, 10 baterias (120V), é esperado que a
tensão no motor seja de 120V-(0,03*350A)= 109,5V (se
supõe que a resistência série da
alimentação e conexões seja de 30 mili-ohms) e
para isto termos um torque de 56 Ft/Lb, 42 Hp, 84% de eficiência
e 4200 RPM.
Nas curvas acima pode-se verificar que o torque em um motor universal
é máximo em baixas rotações, e varia
praticamente de forma linear com a corrente que circula no motor.
Eu estudei todas as curvas enviadas pelo fabricante, e optei por usar
72 V na tensão de alimentação, 350A
máximos, o que dá cerca de 80% de eficiência e uma
potência máxima com esta corrente da ordem de 26 hp @ 2300
RPM nos testes iniciais que devo fazer.
Comparando um motor elétrico e um motor à gasolina
Um motor à gasolina de 4 cilindros e 4 tempos, como a maioria
dos automóveis utiliza no Brasil, é uma máquina
que explode uma mistura de ar e combustível vaporizado 2 vezes
por rotação. Isto significa
que em apenas 2 instantes por volta do motor introduz-se efetivamente
energia para movimenta-lo; todo o resto do tempo parte desta
energia é gasta para fazer o motor continuar funcionando, e
apenas uma
pequena fração da energia produzida sobra efetivamente
para movimentar o veículo. Isto porque são
necessários diversos recursos para integrar e distribuir
uniformemente a energia liberada pela reação
química (da explosão) transformada em energia
mecânica capaz de movimentar o veículo. Um volante
é necessário para manter o movimento de todo o conjunto
de peças que constitui o motor entre uma explosão e
outra, peça esta que faz parte do conjunto de embreagem, veja
nas fotos abaixo. Todo este conjunto mecânico para promover a
reação química, transformando-a em movimento,
é complexo, pesado - e o pior de tudo - ineficiente sob o ponto
de vista energético. Isto porque a maior parte da energia
liberada pela queima do combustível é transformada em
calor, ruído e usada para a operação do
próprio motor. A eficiência obtida não passa dos
20% na maior parte dos casos. De fato os motores à
explosão só servem porque a quantidade de energia
liberada na explosão é muito alta considerando a massa de
energia que se precisa carregar no tanque de combustível.
peças do conjunto de embreagem e partida (motor de arranque)
Para se ter uma idéia, um motor à explosão pequeno
como o motor Enertron usado originalmente em meu Gurgelzinho usa cerca
de 350 componentes, muitos deles submetidos à altas
temperaturas, pressões e atrito. Sem falar no motor de arranque,
escapamento, ignição... De fato a indústria
automotiva conseguiu muito em termos de confiabilidade se considerarmos
a quantidade de possíveis fontes de problema em um motor
à explosão.
Há ainda alguns outros aspectos a se considerar:
1) a faixa de rotação na qual se consegue um desempenho
rasoável (em termos de eficiência) em um motor
à explosão é bem restrita, e por esta razão
é necessário adicionar a caixa de câmbio, que
funciona como um ajuste entre a faixa ótima de
rotações do motor e a velocidade de movimento das rodas
2) não se pode fazer o motor à explosão iniciar
seu movimento a partir de zero (parado), sendo necessáio algum
tipo de desacoplamento mecânico entre as rodas e o motor
(embreagem). Esta peça funciona baseada em uma taxa de atrito
variável, e portanto sujeita a desgaste. Há a
opção de um acoplamento viscoso , como usado nos
automóveis dotados de cambio automático, mas este
é ineficiente e aumenta ainda mais as perdas deste já
tão ineficiente sistema
3) a faixa de temperatura de operação de um motor
à explosão é crítica, devendo-se ajustar de
maneira contínua sua temperatura de operação para
o melhor rendimento. Isto demanda por controles, medição
de temnperatura, ventoinhas, circuitos de água, só para
citar alguns
Não entrando no mérito da questão ambiental /
ecológica, o motor à explosão não é,
definitivamente, um exemplo de mecanismo que evoluiu ao longo dos anos.
Um motor elétrico também não é nenhuma
novidade em termos tecnológicos, baseia-se em principios
há muitos anos conhecidos, os principios do eletromagnetismo.
Motores elétricos tem sido desenvolvidos aproveitando novos
recursos tecnológicos, tais como a eletronica de potência,
mas baseiam-se todos na transformação de energia
elétrica em mecânica pela interação de
campos magnéticos. Sob o ponto de vista de
construção os motores elétricos são bem
mais simples que um motor à explosão, utilizando
não mais que 5% do numero de peças usado neste. Seu
comportamento é totalmente diferente: o torque em um motor
elétrico série como o que elegi para uso em meu projeto
é máximo com o motor parado; não há
praticamente nenhuma perda com dissipação de calor ou
ruído se comparado com um motor à explosão; sua
durabilidade é muito maior (pelo uso de poucas peças
móveis); seu peso é menor (no caso de meu projeto o
motor original pesa cerca de 95 kg enquanto o motor elétrico
pesa 38kg.
O grande problema do motor elétrico não é,
curiosamente, o motor elétrico, mas sim o dispositivo
necessário para alimentá-lo - as baterias. Baterias
são dispositivos que armazenam eletricidade através de
reações químicas, ou seja, usando eletricidade
promove-se reações químicas na bateria,
reações estas que depois ocorrem de forma reversa gerando
novamente eletricidade. Quais são seus problemas? Muitos. Peso
excessivo, durabilidade, baixa capacidade de armazenamento de energia
considerando a massa total da bateria. Muito se tem pesquisado sobre o
assunto, pois parece que há um consenso de que veículos
movidos à eletricidade serão a solução para
o transporte no futuro, mas até hoje o que se conseguiu foram
resultados fracos nesta área. E é isto que limita o uso
de larga escala de carros elétricos (além de
razões mercadológicas e de interesses comerciais que
não pretendo analisar aqui).
Existem disponíveis hoje em dia baterias bem melhores em termos
de capacidade de armazenamento e massa (peso) que as baterias
chumbo-ácidas comuns, mas estas baterias são caras demais
para um projeto relativamente econômico. Um exemplo de baterias
melhores são as usadas em computadores (notebooks) e celulares.
Apesar das limitações que a tecnologia, o meu
orçamento e a disponibilidade de baterias no mercado brasileiro
oferecem decidi levar adiante meu projeto usando baterias chumbo
ácidas.
continua